Por apenas um pouco de atenção

A primeira dica para novas estratégias de políticas públicas direcionada a menores, moradores de rua é bem simples: amor. Sabe o que é? Pois é, háquem negue o amor e prefira continuar insistindo que tudo deve estar no campo pragmático. Mas nem tudo se resolve na prática. E nesse caso a lógica seria: um menino de 13 é irrecuperável. Será mesmo? Foi o que suspeitou Margherit Duvas, uma pedagoga francesa interpretada por Maria de Medeiros.

Para a pedagoga, nenhuma criança poderia ser considerada irrecuperável. E Essa é a comprovação que Margherit quer provar com uma pesquisa. Esse é o motivo que a trouxe ao Brasil.  Conversando com crianças da FEBEM – Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor -, ela pretende comprovar isso e encontrar formas para recuperar as crianças, ditas “sem futuro”. Mas é durante essa pesquisa que a pedagoga francesa conhece Roberto. O Contador de História, de Luiz Villaça, é um filme baseado na vida de Roberto Carlos Ramos.

Alinear, com volta de câmera, mudança de perspectiva da câmera, imagens tremidas para alguns movimentos. Tudo, propositalmente, para compor a história de um menino de rua, com potencial criativo enclausurado. Ele só precisava de atenção. Um menino que aos seis anos foi deixado pela mãe na FEBEM – lugar que ela julgava melhor para educação de seu filho. Roberto, ao invés de educação, deparou-se com as fracas estruturas do Estado, que o joga para margem da sociedade ao invés de fazer dele, parte dela. Menino de rua, bandido ou vítima do trafico e das drogas de rua, esse poderia ter sido o destino de Roberto, não fosse gravador de Margherit.

Sim, o gravador! A partir desse aparelho, Roberto percebeu a possibilidade de contar sua história e, além disso, que alguém se interessaria em ouvi – lá depois. Uma simples entrevista criou laços de amizades. E sem perceber, Margherit, provou que Roberto poderia ser recuperado com a política pública mais eficaz que já existiu, sustentada por três pilares: atenção, carinho e educação. Margherit foi mãe, família e professora.

Juliana Campos Chaves

FICHA TÉCNICA

Direção: Luiz Villaça

Produção: Francisco Ramalho Jr. e Denise Fraga

Roteiro: Mauricio Arruda, José Roberto Torero, Mariana Veríssimo, Luiz Villaça

Montagem: Umberto Martins ABC

ATORES

Margherit Duvas: Maria de Medeiros

Pscicologa: Malu Galli

Mãe de Roberto Carlos: Ju Colombo

Roberto Carlos:

6 anos – Marco Antonio

13 anos – Paulo Henrique

20 anos – Cleiton dos Santos da Silva

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Entrelinhas e Acordes

Palavras pequenas, palavras inteiras. Essas palavras doces, amargas e, muitas vezes, tão incisivas e que nos invadem pela poesia. Essa poesia em forma de música, como um sopro, um suspiro de alguém que desejou falar, que desejou cantar a poesia do cotidiano, da ficção e do coração. Assim é a Palavras [En]Cantada, de Helena Solberg e Marcio Debellian, traçando um paralelo entre a literatura e música popular brasileira.

Uma mesma palavra pode ter diversas tonalidades, assim é a riqueza da nossa língua. Tão rica de sonoridade, tão rica de alma e de vida. Uma cultura musical, sempre em transformação. Foi assim com o samba, que nasce no morro nas vozes de Noel Rosa, Cartola, Ismael Silva e tantos outros poetas que associavam sua palavra a simples acordes. É o cotidiano de quem vive no morro, e como lembra Chico Buarque de Hollanda, acompanhado de uma risada debochada e crítica: “Pois é, o pessoal subia no morro para comprar música. Subia no morro para comprar música.”

E dessa complexa simplicidade, cheia de ousadia que surge Dorival Caymmi, ao som das ondas do mar. A emoção deixa úmidos os olhos de Maria Bethânia. Com devoção a essa poesia bruta, que dispensa lapidação. Aos poucos a música se desconstrói e constrói novidades. Para quem viveu o final da década de 50, não havia antes, nada parecido com a Bossa Nossa. A música de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros mudou completamente toda a música popular brasileira. A Bossa Nova foi, sem dúvida, um marco para tudo que surgiria depois. Assim como o Tropicalismo, com versos desestruturados, dissociados de sentido e com o intuito de não seguir uma cartilha de teoria musical.

Os Mutantes são um exemplo dessa transformação. O tropicalismo surge para quebrar a regra, desprovido de explicação pré-estabelecida para existir. Como Caetano vai dizer após cantar Alegria, Alegria. “Eu falo de coca-cola, de bomba e de Brigitte Bardot, porque eles estão ai, porque existem”. E na mesma época, associada aos diversos ritmos regionais, a guitarra trazia nova sonoridade. Porém, não foi tão facilmente aceita. Houve até uma passeata contra a guitarra. Mas essa não adiantou, não havia mais espaço para proibir, havia espaço para criar, para musicar.

O documentário ainda traça um paralelo com a trajetória de Lirinha, do Cordel de Fogo Encantado. Ele também sofreu essa influência, ao descobrir que para fazer a poesia não era preciso rimar, nem ao menos ter um sentido aparente. Porém, hoje, esse estilo é bem comum, como se pode observar na música de Djavan, não sabemos ao certo do que ele canta, sabemos que fala de amor, apenas.

Nessa transcendência musical que se absorve por todas as partes do corpo, batidas primitivas do tambor associadas ao som de outros instrumentos eletrônicos e da poesia rebuscada. É dessa forma que o Cordel traz a cultura regional e a literatura para todos. Como no rap de Ferréz e BNegão que com uma música urbana e de protesto tentam assimilar a literatura como algo acessível a todos. Algo não elitizado e que como Ferréz mesmo conclui: “A literatura deveria compor a cesta básica.”

E é nesse vão entre literatura e poesia que a música encaixa-se com perfeição. Aqui, não cabe o preconceito, não cabe a dissociação. O filme está falando da “palavra”, mais especificamente, da palavra brasileira, com todas suas misturas, com toda criatividade e tonalidades permitidas e proibidas. Finalizo, com a seguinte provocação, tal como no filme: A poesia pode então virar música? A música é então poesia?

Juliana CC

FICHA TÉCNICA

Direção: Helena Solberg

Produtor: David Meyer

Roteiro: Diana Vasconcellos, Helena Solberg, Marcio Debellian

Argumento e Co-Produtor: Marcio Debellian

Montagem: Diana Vasconcellos

Produtor Executivo: David Meyer

Informação Elementar:  Em cartaz nos cinemas de Porto Alegre

NADA VAI NOS SEPARAR

 

Memória. A minha é recente. Mas garanto, é intensa. Não consigo transpor em palavras. Mas chorei, de sorri e mais uma vez me apaixonei, por toda a minha vida. Eu pensei que era mais uma daqueles sessões de cinema, sozinha. É, eu tava triste no início. Eu queria companhia naquele momento. Mas eis que eu estava errada. Não era um filme qualquer. Não era um público qualquer. Era a torcida vermelho e branco. Eu não estava sozinha. E na poltrona em minha frente, Chico Spina.

Então, o emoção começa a ser projetada. Da sala do cinema para o Beira-Rio. É a história de um time, com 100 anos de vitórias e também derrotas. Mas, uma torcida apaixonada. Uma torcida de todas as idades. Uma torcida que sofre, teme e chora. Chora de tristeza, de alegria por seu time. Por uma paixão que não se explica. Essa é a magia do futebol. Sentimentos aflorados, Todo mundo ali, torcendo, amando algo que não teu, mas é teu e todos aqueles que se vestem de vermelho e branco. Que tatuam o símbolo do Inter no braço, que vendem eletrodomésticos e móveis para ir ver seu time campeão no Japão. É a tão esperada vitória da minha geração. E o legal foi também a surpresa de rever meu professor de geografia lá, contando a nossa história.

Eu queria mais. Eu me senti mais. Ao meu lado, um senhor tinha espasmos ocasionados pela lembrança do time de 60, 70, 80 com Tesourinha, Escurinho e Falcão e outros tantos. Uma memória que eu não compartilho, mas sinto. É como se eu estivesse lá. Em 1900 e tantos gols. Não adianta brigar com ele quando perde, dizer que não vai mais torcer, que não quer mais saber, porque no outro jogo tá todo mundo lá de novo, mais uma vez para gritar…COLORADO COLORADO NADA VAI NOS SEPARAR….

Juliana CC

 

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Ficha técnica:

Diretor: Saturnino Rocha

Roteiro: Luiz Augusto Fischer

Montagem: Giba Assis Brasil

Produção: Gustavo Ioschpe

Trilha Sonora: Fornazzo

Direção de Fotografia: Eduardo Izquierdo e Jorge Henrique ‘Boca’

Edição de Som e Mixagem: Lucio Dorfman

Do Rio de Janeiro para Budapeste

Quantos tropeços devem ocorrer para se aprender uma língua estrangeira? Inspirado no livro de mesmo nome de Chico Buarque, Budapeste é um filme para encher os olhos. Encher os olhos com as lindas paisagens com a suavidade de um trama poética e diferente para o cinema Nacional.
Assim como no livro, José Costa – interpretado por Leonardo Medeiros – é um ghost-writer. Um escritor que escreve para personalidades e nunca é reconhecido, pois seu nome não é citado como o autor. Ele, portanto, escreve sem levar a fama. Essa é a questão principal, porém, outro assunto em plano de fundo está relacionado ao desafio de apreender uma nova língua. Nada mais complicado que o Húngaro, definida pela personagem Kriska como o único idioma para falar com o Diabo.
Mas o estompim da história é quando Costa escreve um livro sobre um estrangeiro no Rio de Janeiro, o título do livro é O Ginógrafo. O livro vira um sucesso. Até a jornalista, apresentadora de um telejornal, Vanda (Giovanna Antonelli), mulher de Costa, se deslumbra com a obra. Costa, atormentado pela suspeita de Vanda estar interessada no escritor, viajar para Budapeste.
Ele deseja esquecer tudo. O português, a vida no Brasil. Em uma livraria ele conhece Kriska (Gabriella Hámori). Será com ela que aprende a falar e escrever húngaro. Por ela, Costa se apaixona. O ex-marido de Kriska, também é um escritor. Costa, o conhece em um encontro de ghost-writer, em Budapeste. Já adaptado à língua, ele começa a escrever monografias, livros de poesia e outros escritos no novo idioma. No auge de sua aproximação com o país, ele é deportado, pois o visto está vencido. De volta ao Brasil. Vai atrás da mulher e do filho. Em pouco tempo, recebe um telefonema para voltar para Budapeste.

Chico Buarque aparece no final do filme

Chico Buarque aparece no final do filme

Quando ele chega, uma multidão está lhe esperando, pedindo autógrafo, inclusive o Chico Buarque pede autógrafo à Costa. Mas ele não havia escrito nenhum livro. Kriska, está lá, orgulhosa dele. E com o livro na mão – Budapeste. Ele diz: – Não, mas não é meu esse livro. Mas ninguém acredita e sorri para ele. Costa, então experimenta o outro lado. O lado da fama, da fama daquilo que ele não fez.
Contudo, assim como o livro, não é um filme linear, o espectador não consegue definir ao certo o que é devaneio, sonho ou realidade, passado, presente ou imaginação. Ao assistir esse filme, estamos diante de um problema incomum e pouco refletida, pois podemos estar diante de vários ídolos falsos, pois terceiro podem estar por trás de poesias, músicas e livros que tanto admiramos. Por isso, e pela maestria da obra, vale a pena conferir, tanto o livro de Chico Buarque quanto o filme de Walter Carvalho.

Confira o trailer:

“Uns pagam com dinheiro, outros com o coração”

Última Parada 174, Bruno Barreto

Dessa vez eu não estava só. Por um instante, esse fato causou-me estranhamento. Assistir ao Última Parada 174 ao lado de um amigo, nada comum para alguém acostumada a longas jornadas de cinema solo. Realmente, a percepção é diferente. A gente pode compartilhar sentimentos, dúvidas e reflexões antes, depois e durante a sessão. Talvez, por essa razão, esteja tão difícil preencher esses espaços em branco.

Bruno Barreto conseguiu me iludir. Por um momento, achei que tudo aquilo era verdade de novo. Mas era um sonho. Um sonho que durou 111 minutos e algumas horas depois continuei a acreditar nele. Oito anos, esse é o intervalo de tempo para refletir sobre uma sociedade doente. Em 2002, José Padilha propôs novas abordagens ao caso no documentário Ônibus 174. Esse episódio poderia ser datado para hoje, não importa, nada seria diferente. A mídia estaria lá pronta para descontextualizar e informar o fato na sua forma mais superficial.

Pena que o sonho demore tanto para ser assimilado. Tantos anos de espera, para assistir a um filme, com personagens ficcionais, frases elaboradas, cenários planejados. Tudo de mentira, mas o resto todo era verdade. O cinema fez o que a televisão ignorou. Dados ao vivo, contribuíram e alimentaram a sociedade em sua forma estúpida de julgar o ser humano individualmente. Somos parte de um mesmo sistema, somos um e o outro, e mesmo assim, estamos sós.

Ao meu lado, alguém que eu posso falar meus devaneios e, por mais idealistas que sejam esses meus pensamentos, ele sempre me surpreenderá com um tom de libertário voraz. É preciso acordar e parar de se afogar em mares tão rasos. Nessa história, mais uma vez, o protagonista foi o poder. O poder está entranhado nas veias do ser humano e corre feito sangue. Qualquer forma de ser mais ou menos poderoso nos afasta. Qualquer forma de controlar nos descontrola.

Juliana CC

Férias da Ditadura

O ano que meus pais sairam de férias, de Cao Hamburger

Novamente o futebol permeia a história. Os gritos calados da repressão se misturam com os gritos de “Gol”. É tempo de Copa do Mundo. 1970, o ano de ver Pelé e Tostão em campo. Enquanto que nos porões da ditadura, a música que tocava não era “Pra frente Brasil”. E meses antes do primeiro jogo da Copa, os pais de Mauro (menino de 12 anos) partiram de “férias” e deixaram o menino com o avô.

Mauro, sem nem mesmo saber o porquê, sofria com a Ditadura Militar. A paixão pelo futebol e a chegada da Copa tornaram os dias de Mauro e de todo o Brasil mais amenos. A alegria a cada grito de “Gol” perpassava a dor de um dos anos mais violentos do regime.

Assim como em Vozes Inocentes, Cao Hamburger conta essa sutileza e pela óptica de uma criança o sofrimento de uma nação em “O ano que meus pais sairam de férias” . De um país, que assim como outros da América Latina, esteve atrasado cultural e politicamente. É para não esquecer, que Hamburger realiza esse filme.

Juliana CC

Hora de passar a bola

Uma família formada por Cluesa, grávida do quinto filho. O mais novo, Reginaldo, quer conhecer o pai. Dario sonha em ser jogador de futebol. Dinho busca na religião a salvação de um passado conflituoso. Dênis ganha a vida como motoboy. Os pilares dessa família é a invisibilidade. De alguma forma, todos eles esperam alguém que perceba seu lance perfeito, seu movimento e, principalmente, seu valor como seres humanos.

Diante de uma cidade como São Paulo, você é um número, entre os mais de 10 milhões de habitantes. Em cada rua e esquina, uma estória oculta, invisível para uma sociedade tão numerosa e preocupada demais para perceber os conflitos diários de seus semelhantes.

Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas é uma filme cheio de verdade. Característica que nos deixa refletir horas depois da sessão. Oriundo de uma escola de documentaristas, Salles investe no clima de realidade. Câmera na mão, atores da comunidade e uma temática cotidiana incluem essa obra ficcional em uma tendência inspirada no documentário.

Juliana CC