Entrelinhas e Acordes

Palavras pequenas, palavras inteiras. Essas palavras doces, amargas e, muitas vezes, tão incisivas e que nos invadem pela poesia. Essa poesia em forma de música, como um sopro, um suspiro de alguém que desejou falar, que desejou cantar a poesia do cotidiano, da ficção e do coração. Assim é a Palavras [En]Cantada, de Helena Solberg e Marcio Debellian, traçando um paralelo entre a literatura e música popular brasileira.

Uma mesma palavra pode ter diversas tonalidades, assim é a riqueza da nossa língua. Tão rica de sonoridade, tão rica de alma e de vida. Uma cultura musical, sempre em transformação. Foi assim com o samba, que nasce no morro nas vozes de Noel Rosa, Cartola, Ismael Silva e tantos outros poetas que associavam sua palavra a simples acordes. É o cotidiano de quem vive no morro, e como lembra Chico Buarque de Hollanda, acompanhado de uma risada debochada e crítica: “Pois é, o pessoal subia no morro para comprar música. Subia no morro para comprar música.”

E dessa complexa simplicidade, cheia de ousadia que surge Dorival Caymmi, ao som das ondas do mar. A emoção deixa úmidos os olhos de Maria Bethânia. Com devoção a essa poesia bruta, que dispensa lapidação. Aos poucos a música se desconstrói e constrói novidades. Para quem viveu o final da década de 50, não havia antes, nada parecido com a Bossa Nossa. A música de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros mudou completamente toda a música popular brasileira. A Bossa Nova foi, sem dúvida, um marco para tudo que surgiria depois. Assim como o Tropicalismo, com versos desestruturados, dissociados de sentido e com o intuito de não seguir uma cartilha de teoria musical.

Os Mutantes são um exemplo dessa transformação. O tropicalismo surge para quebrar a regra, desprovido de explicação pré-estabelecida para existir. Como Caetano vai dizer após cantar Alegria, Alegria. “Eu falo de coca-cola, de bomba e de Brigitte Bardot, porque eles estão ai, porque existem”. E na mesma época, associada aos diversos ritmos regionais, a guitarra trazia nova sonoridade. Porém, não foi tão facilmente aceita. Houve até uma passeata contra a guitarra. Mas essa não adiantou, não havia mais espaço para proibir, havia espaço para criar, para musicar.

O documentário ainda traça um paralelo com a trajetória de Lirinha, do Cordel de Fogo Encantado. Ele também sofreu essa influência, ao descobrir que para fazer a poesia não era preciso rimar, nem ao menos ter um sentido aparente. Porém, hoje, esse estilo é bem comum, como se pode observar na música de Djavan, não sabemos ao certo do que ele canta, sabemos que fala de amor, apenas.

Nessa transcendência musical que se absorve por todas as partes do corpo, batidas primitivas do tambor associadas ao som de outros instrumentos eletrônicos e da poesia rebuscada. É dessa forma que o Cordel traz a cultura regional e a literatura para todos. Como no rap de Ferréz e BNegão que com uma música urbana e de protesto tentam assimilar a literatura como algo acessível a todos. Algo não elitizado e que como Ferréz mesmo conclui: “A literatura deveria compor a cesta básica.”

E é nesse vão entre literatura e poesia que a música encaixa-se com perfeição. Aqui, não cabe o preconceito, não cabe a dissociação. O filme está falando da “palavra”, mais especificamente, da palavra brasileira, com todas suas misturas, com toda criatividade e tonalidades permitidas e proibidas. Finalizo, com a seguinte provocação, tal como no filme: A poesia pode então virar música? A música é então poesia?

Juliana CC

FICHA TÉCNICA

Direção: Helena Solberg

Produtor: David Meyer

Roteiro: Diana Vasconcellos, Helena Solberg, Marcio Debellian

Argumento e Co-Produtor: Marcio Debellian

Montagem: Diana Vasconcellos

Produtor Executivo: David Meyer

Informação Elementar:  Em cartaz nos cinemas de Porto Alegre

1 Comentário

  1. Bom, muito bom………….


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