“O poder é afrodisíaco”

Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia

O ralo cheira mal. O banheiro é usado unicamente por você. De quem é o cheiro? Lourenço, personagens interpretado por Selton Mello, vive esse dilema. O ralo do banheiro do seu escritório está entupido e exala um aroma desagradável. Ele usa roupas em tons de marrom, não gosta de ninguém, não quer saber de nada e não se importa com nada. No momento, Lourenço só tem uma preocupação: “que as pessoas saibam que o cheiro é do ralo, não dele”.

O longa-metragem segue uma antiga fórmula de fazer cinema inspirado em obras literárias. O Cheiro do Ralo é um livro do escritor Lourenço Mutarelli, que também atua no filme. A história é de um homem que compra objetos usados para revender. Ele compra histórias e sentimentos. Ele cria uma história. Tenta reconstituir o pai ausente e o amor puro, personificado em uma bunda.

Existencialista, humano e amargo. Adjetivos que caem bem para definir essa trama repleta de humor negro e críticas sociais. Lourenço parece um homem arrogante, poderoso, um ser escroto que usa o dinheiro para comprar tudo e todos. Ele decide o preço: 20 reais por um faqueiro de prata, 400 reais por um olho de plástico e todo o dinheiro que tem, para ver a Bunda. Ele se apaixona pela bunda da garçonete, mas quer comprá-la para si, evitando qualquer outro envolvimento que fuja do seu controle.

Ele dá o preço, as pessoas aceitam. Trocam seus sentimentos, bens que contam suas histórias por qualquer trocado. No fundo, Lourenço apenas se aproveita dessa fragilidade (des)humana. Paga para ser, sentir e tocar. Todos nessa história não passam de figurantes, coisas na vida de Lourenço. Os personagens não têm nome, exceto o Lourenço. Os demais, a gente identifica como a secretária, a garçonete, o segurança, a ex-mulher do Lourenço entre outros anônimos que compõem o filme. A falta de nomes identifica um individualismo, representado por ele.

No desenrolar de tantas histórias, o cheiro continua. A culpa vem do ralo, da comida que come na lancheria que ele freqüenta para ver a bunda da garçonete. A culpa é da bunda ou é ela a solução? Lourenço faz de tudo para resolver o problema do ralo, quando consegue sente falta, pois o mau cheiro era a conexão com o seu eu verdadeiro. O cheiro lhe fortalecia. “O cheiro me dá poder”, diz.

Juliana CC

1 Comentário

  1. Juliana CC
    mto bom


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